terça-feira, 24 de abril de 2012

A influência japonesa em nosso Judô


Sensei Shiozawa, considerado por alguns o maior 
judoca já visto no Brasil

Recentemente foi defendida na USP uma tese de doutorado muito interessante e que desvelou algumas incógnitas sobre a origem do Judô brasileiro. Alexandre Velly Nunes desenvolveu uma extensa pesquisa sobre os troncos japoneses que disseminaram o judô pelo Brasil. Estou lendo a tese e posteriormente pretendo escrever sobre ela aqui no blog, pois é um trabalho que considero fantástico. Leiam o resumo abaixo:

O Brasil conquistou 38 medalhas no judô de 1956 a 2010 em Campeonatos. Mundiais (CM) e de 1964-2008 em Jogos Olímpicos (JO). Estas medalhas estão divididas entre 23 atletas. Sete deles conquistaram medalhas em JO e CM. Aurélio Miguel (1988-1996), Tiago Camilo (2000-2008) e Leandro Grilheiro (2004-2008), se destacam com duas medalhas em JO e em CM. O objetivo deste estudo é elaborar uma genealogia do judô brasileiro e compreender a dimensão da influência da imigração japonesa neste contexto. Este estudo utilizou a metodologia de História Oral de Vida Híbrida. Foram entrevistados os medalhistas brasileiros em JO e CM até 2010 e os seus respectivos professores. Analisando as entrevistas identifiquei os ascendentes judoísticos dos atletas, até a determinação dos seus respectivos genearcas. Assumiu-se que genearca é aquele que chegou ao Brasil com conhecimentos suficientes para ministrar aulas de judô/jiu-jitsu. A maioria dos genearcas do judô brasileiro são imigrantes japoneses. Fogem a essa regra o sensei Georges Mehdi, naturalizado brasileiro e o sensei João Graf Vassoux. Mitsuyo Maeda foi o primeiro a chegar e fazer demonstrações de judô no Brasil, em 1914. Em 1936 Ryuzo Ogawa fundou a Budokan. Ele é o genearca que influenciou o maior número destes atletas. Antes da Segunda Guerra Mundial (SGM) verifiquei a importância do trabalho de Yassuishi Ono, Sobei Tani, e Katsutoshi Naito, em SP, Sadai Ishihara no Paraná, Soishiro Satake em Manaus e Takeo Yano em vários estados. Após a SGM identifiquei a influência de Chiaki Ishii, Shuhei Okano e Onodera em SP, Teruo Obata e Naoshige Ushijima no RS e Michio Ninomiya no DF. O surgimento e a expansão do judô no Brasil está diretamente relacionado ao processo de imigração japonesa. Encontrei dois perfis de professores: os formadores e os treinadores. Destacam-se os professores: Massao Shinohara, Paulo Duarte, Orlando Hirakawa e Uichiro Umakakeba, formadores de nove judocas que conquistaram 18 das 38 medalhas brasileiras da história. Como treinador, destaca-se Floriano de Almeida que influenciou a carreira de sete medalhistas. Os locais de formação são distintos daqueles onde os atletas alcançaram as suas melhores performances. Entre os dojos formadores destaco as associações Vila Sônia em, Hirakawa e Paulo Duarte

A tese pode ser baixada gratuitamente na biblioteca digital de teses e dissertações da USP no link abaixo:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/39/39133/tde-30012012-150144/pt-br.php

Para motivar a leitura da tese, transcrevo abaixo um artigo sobre a influência japonesa no nosso judô, retirado da Revista Ippon e publicado no site Judô Carioca:


A INFLUÊNCIA JAPONESA NO NOSSO JUDÔ
O judô brasileiro é japonês de origem. A maior concentração da colônia oriental é em São Paulo. Não é a toa que esse estado tenha se tornado o mais forte no judô nacional.
Não foi à toa também que a primeira medalha olímpica do judô daqui tenha sobrenome japonês: Chiaki Ishii, brasileiro naturalizado que conquistou bronze nas Olimpíadas de Munique.
Foram necessárias décadas de germinação nos guetos japoneses até a modalidade conquistar espaço na agenda esportiva dos brasileiros.
Hoje, é uma das atividades esportivas mais concorridas.
Praticado em academias, clubes e escolas, o judô é muito respeitado como esporte disciplinador e ao mesmo tempo como um dos mais competitivos do mundo. Para comprovar isso estão aí os milhares de atletas inscritos nas federações estaduais e as medalhas olímpicas que o judô brasileiro já conquistou: duas de ouro, uma de prata e cinco de bronze.
O judô do Brasil tem em um brasileiro nato o seu maior nome: Aurélio Miguel, medalha de ouro nas Olimpíadas de Seul (88) e bronze nas de Atlanta (96).
Mas justamente o principal ídolo do esporte por aqui se considera mais japonês que muito japonês. Aliás, recomenda o Japão como fonte inspiradora e local ideal para treinamentos. "Antes de todas as minhas conquistas importantes sempre houve um estágio no Japão", justificou. Fato comum na história da esmagadora maioria dos atletas de todos os estados, na formação do judoca Aurélio Miguel também vai se encontrar um ‘sensei’ tipicamente japonês. No caso dele, Massao Shinohara.
O estilo refinado não consegue esconder a ‘orientalidade’ de sua origem. Juntos, o intenso intercâmbio promovido pelas entidades que dirigem o esporte no país e o talento natural dos atletas nacionais, têm revelado sucessivas gerações de bons atletas nas competições internacionais como Lhofei Shiozawa, Ryoji Suzuki, Takayuki Nishida, Hely Sassaki, Anelson Guerra, Luís e Nelson Onmura, Walter Carmona, Douglas Vieira, Carlos Alberto Pacheco, Carlos Alberto MC Cunha, Oswaldo Simões, Ricardo e Rogério Sampaio, Edinanci Silva, Danielle Zangrando, Henrique Guimarães, Sebastian Pereira e Fúlvio Miyata entre muitos outros.O caráter disciplinador é uma das principais particularidades do judô. Também é essa uma das grandes heranças do esporte aqui praticado.
Os mestres japoneses transmitem a seus alunos uma consciência de hierarquia e respeito que muitos pais têm dificuldades de passar aos filhos.
Durante as últimas décadas, entretanto, esse aspecto educativo do judô vem perdendo força. Os imigrantes estão desaparecendo e seus descendentes ficando cada vez mais distantes de suas origens. Aos poucos, o judô brasileiro vai perdendo o sotaque e a tutela de ‘senseis’ como Shinohara, Oide, Onodera, Ishii, Ono, Suganuma, Miura etc. Estão cedendo seus lugares a nomes como Geraldo Bernardes, Paulo Duarte, Paulo Wanderley, Ney Wilson, Floriano de Almeida, Douglas Vieira, Sérgio Pessoa, etc.
Entretanto, serão necessárias dezenas de anos até que o judô do Brasil deixe de transparecer sua origem. Afinal, a forma que moldou as gerações que passaram continua a ser usada pelos ex-alunos, hoje na função de mestres. Além disso, sobrenomes como Ishii, Shinohara, Miyata, entre outros, seguem levando aos tatames e em verde-amarelo o judô que aprenderam no berço. Essa miscigenação se repete em outros países, mas em nenhum lugar é tão forte como no Brasil. Como no mundo de hoje globalização é a palavra de ordem, pode-se apenas esperar que ela não se traduza em breve por homogeneização do esporte. É importante que o judô mantenha em cada região seus sabores próprios.
Texto do jornalista Moacir Ciro Martins, publicado na Revista IPPON, nº 17, JUN/JUL - 1998.

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