Sensei Shiozawa, considerado por alguns o maior
judoca já visto no Brasil
Recentemente foi defendida na USP uma tese de doutorado muito interessante e que desvelou algumas incógnitas sobre a origem do Judô brasileiro. Alexandre Velly Nunes desenvolveu uma extensa pesquisa sobre os troncos japoneses que disseminaram o judô pelo Brasil. Estou lendo a tese e posteriormente pretendo escrever sobre ela aqui no blog, pois é um trabalho que considero fantástico. Leiam o resumo abaixo:
O Brasil conquistou 38 medalhas no judô de 1956 a 2010 em Campeonatos.
Mundiais (CM) e de 1964-2008 em Jogos Olímpicos (JO). Estas medalhas
estão divididas entre 23 atletas. Sete deles conquistaram medalhas em JO
e CM. Aurélio Miguel (1988-1996), Tiago Camilo (2000-2008) e Leandro
Grilheiro (2004-2008), se destacam com duas medalhas em JO e em CM. O
objetivo deste estudo é elaborar uma genealogia do judô brasileiro e
compreender a dimensão da influência da imigração japonesa neste
contexto. Este estudo utilizou a metodologia de História Oral de Vida
Híbrida. Foram entrevistados os medalhistas brasileiros em JO e CM até
2010 e os seus respectivos professores. Analisando as entrevistas
identifiquei os ascendentes judoísticos dos atletas, até a determinação
dos seus respectivos genearcas. Assumiu-se que genearca é aquele que
chegou ao Brasil com conhecimentos suficientes para ministrar aulas de
judô/jiu-jitsu. A maioria dos genearcas do judô brasileiro são
imigrantes japoneses. Fogem a essa regra o sensei Georges Mehdi,
naturalizado brasileiro e o sensei João Graf Vassoux. Mitsuyo Maeda foi o
primeiro a chegar e fazer demonstrações de judô no Brasil, em 1914. Em
1936 Ryuzo Ogawa fundou a Budokan. Ele é o genearca que influenciou o
maior número destes atletas. Antes da Segunda Guerra Mundial (SGM)
verifiquei a importância do trabalho de Yassuishi Ono, Sobei Tani, e
Katsutoshi Naito, em SP, Sadai Ishihara no Paraná, Soishiro Satake em
Manaus e Takeo Yano em vários estados. Após a SGM identifiquei a
influência de Chiaki Ishii, Shuhei Okano e Onodera em SP, Teruo Obata e
Naoshige Ushijima no RS e Michio Ninomiya no DF. O surgimento e a
expansão do judô no Brasil está diretamente relacionado ao processo de
imigração japonesa. Encontrei dois perfis de professores: os formadores e
os treinadores. Destacam-se os professores: Massao Shinohara, Paulo
Duarte, Orlando Hirakawa e Uichiro Umakakeba, formadores de nove judocas
que conquistaram 18 das 38 medalhas brasileiras da história. Como
treinador, destaca-se Floriano de Almeida que influenciou a carreira de
sete medalhistas. Os locais de formação são distintos daqueles onde os
atletas alcançaram as suas melhores performances. Entre os dojos
formadores destaco as associações Vila Sônia em, Hirakawa e Paulo Duarte
A tese pode ser baixada gratuitamente na biblioteca digital de teses e dissertações da USP no link abaixo:
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/39/39133/tde-30012012-150144/pt-br.php
Para motivar a leitura da tese, transcrevo abaixo um artigo sobre a influência japonesa no nosso judô, retirado da Revista Ippon e publicado no site Judô Carioca:
| A INFLUÊNCIA JAPONESA NO NOSSO JUDÔ |
O
judô brasileiro é japonês de origem. A maior concentração da colônia
oriental é em São Paulo. Não é a toa que esse estado tenha se tornado o
mais forte no judô nacional.
Não
foi à toa também que a primeira medalha olímpica do judô daqui tenha
sobrenome japonês: Chiaki Ishii, brasileiro naturalizado que conquistou
bronze nas Olimpíadas de Munique.
Foram
necessárias décadas de germinação nos guetos japoneses até a modalidade
conquistar espaço na agenda esportiva dos brasileiros.
Hoje, é uma das atividades esportivas mais concorridas.
Praticado
em academias, clubes e escolas, o judô é muito respeitado como esporte
disciplinador e ao mesmo tempo como um dos mais competitivos do mundo.
Para comprovar isso estão aí os milhares de atletas inscritos nas
federações estaduais e as medalhas olímpicas que o judô brasileiro já
conquistou: duas de ouro, uma de prata e cinco de bronze.
O
judô do Brasil tem em um brasileiro nato o seu maior nome: Aurélio
Miguel, medalha de ouro nas Olimpíadas de Seul (88) e bronze nas de
Atlanta (96).
Mas
justamente o principal ídolo do esporte por aqui se considera mais
japonês que muito japonês. Aliás, recomenda o Japão como fonte
inspiradora e local ideal para treinamentos. "Antes de todas as minhas
conquistas importantes sempre houve um estágio no Japão", justificou.
Fato comum na história da esmagadora maioria dos atletas de todos os
estados, na formação do judoca Aurélio Miguel também vai se encontrar um
‘sensei’ tipicamente japonês. No caso dele, Massao Shinohara.
O
estilo refinado não consegue esconder a ‘orientalidade’ de sua origem.
Juntos, o intenso intercâmbio promovido pelas entidades que dirigem o
esporte no país e o talento natural dos atletas nacionais, têm revelado
sucessivas gerações de bons atletas nas competições internacionais como
Lhofei Shiozawa, Ryoji Suzuki, Takayuki Nishida, Hely Sassaki, Anelson
Guerra, Luís e Nelson Onmura, Walter Carmona, Douglas Vieira, Carlos
Alberto Pacheco, Carlos Alberto MC Cunha, Oswaldo Simões, Ricardo e
Rogério Sampaio, Edinanci Silva, Danielle Zangrando, Henrique Guimarães,
Sebastian Pereira e Fúlvio Miyata entre muitos outros.O caráter
disciplinador é uma das principais particularidades do judô. Também é
essa uma das grandes heranças do esporte aqui praticado.
Os
mestres japoneses transmitem a seus alunos uma consciência de
hierarquia e respeito que muitos pais têm dificuldades de passar aos
filhos.
Durante
as últimas décadas, entretanto, esse aspecto educativo do judô vem
perdendo força. Os imigrantes estão desaparecendo e seus descendentes
ficando cada vez mais distantes de suas origens. Aos poucos, o judô
brasileiro vai perdendo o sotaque e a tutela de ‘senseis’ como
Shinohara, Oide, Onodera, Ishii, Ono, Suganuma, Miura etc. Estão cedendo
seus lugares a nomes como Geraldo Bernardes, Paulo Duarte, Paulo
Wanderley, Ney Wilson, Floriano de Almeida, Douglas Vieira, Sérgio
Pessoa, etc.
Entretanto,
serão necessárias dezenas de anos até que o judô do Brasil deixe de
transparecer sua origem. Afinal, a forma que moldou as gerações que
passaram continua a ser usada pelos ex-alunos, hoje na função de
mestres. Além disso, sobrenomes como Ishii, Shinohara, Miyata, entre
outros, seguem levando aos tatames e em verde-amarelo o judô que
aprenderam no berço. Essa miscigenação se repete em outros países, mas
em nenhum lugar é tão forte como no Brasil. Como no mundo de hoje
globalização é a palavra de ordem, pode-se apenas esperar que ela não se
traduza em breve por homogeneização do esporte. É importante que o judô
mantenha em cada região seus sabores próprios.
Texto do jornalista Moacir Ciro Martins, publicado na Revista IPPON, nº 17, JUN/JUL - 1998.
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